Para entender o mecanismo de aprender, é preciso conhecer o funcionamento do cérebro. Cada tipo de habilidade ou comportamento pode ser relacionado a certas áreas do cérebro em particular. Assim, há áreas habilitadas a interpretar estímulos que levam à percepção visual e auditiva, à compreensão e à capacidade linguística, à cognição, ao planejamento de ações futuras, inclusive de movimento, e outras.
Há necessidade, portanto, que o professor estude o cérebro para desenvolver com competência as suas práticas pedagógicas em sala de aula. Sendo o professor aquele que trabalha com processos cognitivos, como a linguagem e a aprendizagem, é fundamental que ele conheça a estrutura biológica em que se dá esse processo. Da mesma forma, ele deve compreender o funcionamento neurológico, o desenvolvimento e a maturação cerebral para que seja capaz de conhecer e desenvolver o potencial cognitivo do aprendiz (criança, adolescente ou adulto) quanto às funções relacionadas à linguagem e à aprendizagem.
O cérebro é a matriz do processo de aprendizagem. É ele que propicia o arcabouço biológico para o desenvolvimento das habilidades cognitivas. Os estudos afirmam que o cérebro é formado por aproximadamente 100 bilhões de neurônios, de formas e tamanhos diferentes. Cada neurônio comunica-se com milhares de outros, utilizando-se de prolongamentos curtos ou longos, formando incontáveis possibilidades de conexões neuronais, à semelhança de uma rede. A cada novo estímulo, que gera novo conhecimento, uma nova rede se forma conectando-se às antigas, possibilitando infinita formação de redes. Assim, para que se estabeleça uma adequada utilização dessas conexões, existe um sistema de processamento que seleciona as redes neuronais para cada ocasião, a fim de possibilitar respostas rápidas a cada estímulo, seja ele verbal ou não verbal. Por exemplo, se estamos estabelecendo um diálogo sobre “bem-te-vis”, o sistema nervoso central seleciona as redes neuronais em que essa ave está inserida, facilitando a fluidez e o ritmo da conversação. Se estudamos sobre abelhas, realizamos diversas leituras, assistimos a filme sobre a vida das abelhas, antes de visitarmos colmeias (aula-passeio-viagem aos apiários de Picos/PI), ao contatar com elas, o sistema nervoso central seleciona as redes que registram a experiência anterior, para favorecer o comportamento a ser seguido no momento da visitação.
Ainda não se sabe exatamente como o cérebro faz para selecionar um estímulo em detrimento de outros, porém se sabe que essa seleção acontece de dois modos: pela intensidade dos estímulos que estimulam os receptores sensoriais e por mecanismos de memória baseados nas experiências anteriormente vividas pelo aprendiz. A aprendizagem e a memória necessitam de mecanismos neuronais mediados pelas sinapses nervosas. Toda vez que a pessoa vive nova experiência, ocorre um rearranjo das redes neuronais. Outras sinapses são reforçadas e múltiplas possibilidades de respostas ao ambiente tornam-se possíveis.
A memória é o registro de experiências e fatos vividos e observados que podem ser resgatados quando preciso. Pode-se, portanto, entender que a memória é a base da aprendizagem. Com as experiências armazenadas na memória, têm-se a oportunidade e a habilidade de mudar o comportamento.
O processo de aprendizagem envolve áreas motoras, auditivas, ópticas, térmicas... Cabe ao professor, que atua com a aprendizagem, conhecer, avaliar e intervir no funcionamento cognitivo do aprendiz. Exercícios de ativação da sensorialidade (ver, cheirar, pegar, ouvir, provar...) possibilitam o primeiro estágio de contato do aprendiz com o objeto de estudo, desencadeador dos demais estágios da aprendizagem. A partir das sensações (1°), as percepções (2°) são registradas; as imagens (3º) são formadas, verbalizadas através de símbolos verbais ou não-verbais (4°) e, por último, o processo mental mais complexo se dá, isto é, a conceituação (5°), que envolve capacidades de abstração, classificação e categorização.
Cotidiano escolar
São muitas as aprendizagens favoráveis ao trabalho docente a partir do estudo do cérebro. Por isso, recomenda-se, atualmente, a inclusão da Neurociência e Aprendizagem nos cursos de formação docente (Pós-Graduação, cursos de Educação Continuada). O momento é oportuno, uma vez que os cursos de Pedagogia passam por reformulações e a capacitação docente, com cursos presenciais ou à distância, são prioridades na educação do país. É importante que os órgãos competentes estejam atentos às demandas e as suas reais necessidades.
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* Licenciada em Letras. Mestra em Educação/Ensino. Membro da Sociedade Brasileira de Neurociência.